Arquivo mensal fevereiro 2019

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Discurso proferido pela Profa. Dra. Terezinha

Discurso proferido pela Profa. Dra.  Terezinha Alves de Oliva,
Oradora do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, na sessão solene comemorativa dos 106 anos de fundação do IHGSE.

Senhoras e Senhores:

A “chamada” com que se iniciou esta solenidade deu o tom da celebração que hoje nos reúne. Comemoramos o centésimo sexto aniversário do IHGSE chamando à imortalidade, nos nossos corações e mentes, aqueles que nos legaram o patrimônio em torno do qual se faz o Sodalício. É lembrando os nossos “pais fundadores” e os que consolidaram esta Casa que estabeleceremos a sua memória e conheceremos melhor a instituição que hoje temos, pela trajetória que a fez superar os cem anos de atividade e creditar-se para o futuro

Não é pequeno esse patrimônio. O Instituto Histórico e Geográfico construiu uma memória e uma identidade para Sergipe. Mantém uma Biblioteca com mais de 45.000 volumes, dos quais cerca de 10.000 sobre Sergipe; uma Hemeroteca com mais de mil volumes de  jornais, a maioria deles digitalizada; um Arquivo com documentos particulares de intelectuais sergipanos, com inventários, mais de mil cartas e centenas de fotografias; uma Pinacoteca surpreendente, que guarda obras de artistas locais e de artistas brasileiros; um Museu precursor da história da Museologia em Sergipe; esta sede imponente, prestes a completar oitenta anos e sua Revista, de qualidade reconhecida, o mais antigo e certamente o mais conceituado periódico em circulação no Estado, o maior veículo de divulgação do conhecimento histórico entre nós.

Se nos ativermos às obras publicadas sobre o IHGSE : A escrita da História na Casa de Sergipe – 1913-1999, de Itamar Freitas; História da Casa de Sergipe, de Ibarê Dantas e História, Memória e Comemorações na Casa de Sergipe, organizada por Samuel Albuquerque, Magno Francisco Santos e Ane Luise Mecenas Santos – sem falar no conjunto de Monografias e de artigos sobre o Instituto e os seus intelectuais –  poderemos nos apropriar do conhecimento que fundamenta as razões da grandeza e da importância deste Sodalício. De modo geral, essas obras mostram uma trajetória difícil, por vezes marcada por períodos de declínio ou de crise acentuada, mas uma trajetória ininterrupta, numa instituição capaz de manter a sua Revista e o seu acervo, ainda mesmo quando não tinha sede própria, peregrinando por quase trinta anos em diferentes endereços. Por outro lado, ela abrigou grandes figuras humanas, capazes de negociar, continuamente, a sobrevivência do Instituto, em interlocução com o poder público e com setores da sociedade civil, sempre atentas às circunstâncias locais e às vicissitudes da política, que conseguiram, no geral, fazer o IHGSE escapar à subserviência e à manipulação daqueles que atenderam aos seus clamores, em momentos específicos.

Ibarê Dantas, na História da Casa de Sergipe, além de caracterizar as etapas dessa História centenária, enfocou três “políticas” definidoras da trajetória que nos legou o Instituto que hoje temos: a política de aproximação com os governantes como forma de sobrevivência; a política orientadora de decisões do Estado, quando o Instituto se comportou como órgão técnico e cultural, acima dos partidos e facções; e a política voltada à construção da cidadania, pela defesa de valores humanísticos, pelo culto ao civismo e pelo acolhimento a manifestações da vida social e cultural de Sergipe.  Assim, o Instituto Histórico e Geográfico se estabeleceu como casa de memória e de produção do saber e, na avaliação do citado historiador, contribuiu em seu meio, para difundir uma “visão secularizada e crítica da sociedade”.

Grandes causas encontraram acolhimento aqui, como no passado, a da Alfabetização e mais recentemente, a da Democratização da sociedade. Neste auditório aconteceram eventos dos mais significativos para os sergipanos: nele desfilaram, em sessões memoráveis, várias das nossas instituições culturais e educacionais. O Instituto teve no seu quadro de sócios, os maiores intelectuais de Sergipe e manteve a hegemonia na produção intelectual local até o aparecimento da Universidade Federal e a posterior multiplicação de Cursos Superiores. A partir da década de setenta enfrentou um longo período de declínio e de crise, mas nunca fechou as portas e resistiu.

A partir de 2003, com o advento dos “Tempos de Reforma e de Modernização”, o Instituto recuperou o seu papel aglutinador, trazendo de volta o movimento intelectual particularmente em torno da História, com a participação de Universidades e da Associação Nacional de História ANPUH/Sergipe. Passou a realizar o Congresso Sergipano de História (2008) e outros eventos que povoaram de jovens estudantes os salões desta Casa. Historiadores também são maioria entre os autores dos artigos da Revista do IHGSE que ganhou mais densidade e regularizou sua periodicidade. Diferente de outros Institutos Históricos que ainda se debatem em torno da orientação a dar às suas Revistas, o nosso veículo se consolidou como publicação científica bem avaliada pela CAPES, embora continue também a registrar os eventos e documentos do próprio Instituto.

Com vida nova, o Instituto comemorou o seu centenário, em 2012 e agora se prepara para o desafio de comemorar o Bicentenário da Emancipação Política de Sergipe, em 2020. Para isso, precisamos de mais congraçamento e empenho dos sócios e de toda a sociedade. O Instituto a quem, pela “lei do menor esforço” chamamos de Instituto Histórico, é na verdade Histórico e Geográfico. Este caráter foi assim definido no discurso do Fundador, Florentino Teles de Menezes, ao dizer, na sessão inaugural, que “a História é a escada por onde sobem os povos”, mas o estudo da Geografia “é uma necessidade impreterível”, pois “já nas relações comerciais, já na troca de pensamentos, os homens cada vez mais unem-se, razão porque o seu estudo torna-se indispensável”. (Discurso, RIHGSE, n.1, 1913)

O primeiro Estatuto do Sodalício destinava a uma Comissão de Geografia as tarefas de : obter dados sobre o movimento de Sergipe no tocante à propriedade, trabalho, renda e desenvolvimento moral desde a sua formação; obter documentos descritos das localidades do Estado; obter documentos que precisem os limites tanto do Estado como de município a município; obter todos os mapas , cartas geográficas e plantas de edifícios do Estado e proceder a estudos para se levantar um mapa completo de Sergipe.  

De fato, desde o início os sócios do Instituto abraçaram a questão dos limites entre Sergipe e Bahia. Questão antiga, que levou os sergipanos aos tribunais, tentando reaver os chamados “direitos históricos” a uma fatia do território perdida. Sócios do IHGSE, Ivo do Prado com “A Capitania de Sergipe e suas Ouvidorias” e Carvalho Lima Júnior, com a “História dos limites entre Sergipe e Bahia”, defenderam nestas obras de valor excepcional a legitimidade das pretensões de Sergipe, enquanto a Revista do Instituto dava guarida a valiosos artigos sobre o tema.

Estudos sobre o Rio Sergipe, sobre o Baixo São Francisco ou sobre as secas, também foram preocupações do Instituto, enquanto o estudo dos municípios sergipanos chegou a ser um projeto da Casa. Na década de quarenta, a Geografia esteve em evidência. Em 1940, o Presidente do Instituto, Hunald Santaflor Cardoso, participou do IX Congresso de Geografia, em Florianópolis; já em 1942, o número 16 da Revista trazia Felte Bezerra divulgando a Doutrina Possibilista na Geografia; Câmara Cascudo escrevendo sobre A Geografia de Sergipe no domínio holandês e Carvalho Neto abordando as Causas e Consequências da Seca. No número 17, Felte Bezerra publicaria artigo sobre Fronteiras.

Mas foi de José Calasans, que assumiu a Presidência do Instituto aos trinta anos, o projeto de dar corpo ao caráter de Instituto Histórico e Geográfico, desejando marcar a sua gestão com a realização de um ambicioso Congresso de História e Geografia de Sergipe, em 1943. Seriam temas da Geografia no Congresso: 2 – Fronteiras de Sergipe na Colônia e no Império; 23- Indústria sergipana e seu atual desenvolvimento; 24 – Influência do Porto de Aracaju na vida econômica do Estado; 25 – Nomenclatura Geográfica de Sergipe; 26 – A Geografia das Comunicações de Sergipe; 27 – Os rios na economia de Sergipe; 29 – Vida municipal na formação e evolução dos municípios; 30- Bibliografia histórica e geográfica de Sergipe; 31 – Monografias municipais.

Suspenso pelo próprio Presidente, que não encontrou apoios no clima de guerra então vigente, Calasans também não conseguiria realizar o Encontro Regional de História e Geografia, por ele proposto em 1946, mas deixou o testemunho da sua preocupação e do seu entusiasmo, consagrados no estudo clássico sobre a Mudança da Capital.

Felte Bezerra, outro Presidente do Sodalício, foi o geógrafo do Instituto e essa sua atuação está certamente a merecer um estudo. Integrante da Comissão de Geografia, além do que aqui já foi reportado, escreveu no número 19 da Revista sobre “Origens do Rio Real”, uma amostra clara dos seus conhecimentos na área. Concorreu à cátedra no Atheneu com tese intitulada “A Terra” e fundou o Centro Cultural de Sergipe que terminaria realizando reuniões no IHGSE, onde seriam abordados em palestras temas como “Doutrina Possibilista na Geografia Humana” e “Novas Diretrizes da Geografia Humana”. Frequentando Congressos de Geografia e escrevendo em várias Revistas, Felte lançou, em 1952, o livro “Investigações Histórico-Geográficas de Sergipe” em que faz a assimilação dos conhecimentos geográficos à interpretação da História da Colonização de Sergipe. Reeditado, o livro integra a Coleção Casa de Sergipe, vitorioso projeto do Centenário deste Instituto.

Não fossem os limites de um discurso lembraríamos ainda as atuações de Bonífácio Fortes, Professor de Geografia Humana da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe e Presidente do Instituto na década de sessenta, com seus estudos sobre Aracaju, enfocando a paisagem humana e a importância dos fatores políticos e geográficos na mudança da capital e  ainda de Fernando Porto, Vice-Presidente do Sodalício na gestão Thetis Nunes, e Professor do Departamento de Geografia da UFS, com os seus antológicos estudos sobre Aracaju.

Fato é que o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe tem motivos de sobra para atualizar e ampliar no seu quadro de sócios e nas suas Comissões a presença de geógrafos. Esperamos que eles venham e serão muito bem-vindos, como o são hoje os novos confrades empossados, sócios efetivos e sócio correspondente, a quem saudamos, na certeza de que vêm somar esforços, às vésperas das comemorações do Bicentenário da Emancipação Política de Sergipe.

Convocamos desde já a todos os sócios e amigos do IHGSE: usemos o Bicentenário como mote para uma aproximação maior da Casa de Sergipe, fortalecendo-a, ajudando-a a superar as dificuldades que a afetam na atual conjuntura e garantindo que as mulheres e os homens do presente honram o legado que receberam e imortalizam num Instituto Histórico e Geográfico pujante, a memória dos fundadores.

Parabéns IHGSE!